Por O Globo
Conhecida inicialmente pela operação de cartão de débito internacional, Revolut aposta em cartão de crédito e quer se tornar banco no país
Com 1,3 milhão de usuários em cerca de 40 países — e um número não divulgado de clientes brasileiros — a fintech inglesa Revolut anunciou ontem planos para expandir a presença no Brasil e na América Latina. Conhecida inicialmente pela operação de cartão de débito internacional, a principal aposta da Revolut agora é no cartão de crédito.
A empresa vai ampliar a oferta de cartão de crédito para os cinco planos de assinatura disponíveis, do mais básico, o Standard, até o modelo premium, com anuidade de R$ 250 mensais, e que inclui um pacote de até 14 benefícios sem necessidade de comprovação de renda (mas a renda é considerada na definição do limite do cartão).
Com mimos que somam cerca de R$ 1,4 mil, se todos os benefícios fossem usados por fora, o pacote inclui serviços como assinaturas de aplicativos de monitoramento de sono, do jornal Financial Times, do aplicativo Duolingo e até da Lovable, startup de desenvolvimento de software de inteligência artificial (IA).
Entram ainda benefícios “clássicos” de cartões premium, como acesso a salas VIP em aeroporto e troca de pontos por milhas de companhias aéreas.
Os planos também incluem cotas mensais de câmbio com spread zero e isenção de IOF, de acordo com o pacote.
CEO da companhia no Brasil, Glauber Mota explica que por ter iniciado as atividades na operação de câmbio, a base da Revolut era de clientes que compravam dólar ou investiam fora do país, mas que à medida que novos produtos foram lançados, como Pix e boletos, o cenário mudou: hoje, um terço dos usuários da fintech só transaciona em real, enquanto outro terço apenas no exterior e o restante mescla as operações.
— Agora, nossa expectativa é aproximar essa base do perfil da pirâmide populacional brasileira, tornando-a mais ampla. A gente não olha muito para segmentação, mas para o produto, e está quebrando a lógica de que apenas quem tem alta renda pode acessar cartão de crédito e benefícios premium — defende o executivo, que acumula passagens pelo Itaú e BTG.
O plano premium foi batizado de Ultra — nome um tanto parecido com o Ultravioleta, cartão premium da Nubank, a “rival” da Revolut na disputa pelo título de fintech mais valiosa do mundo.
No ano passado, a Revolut foi avaliada em US$ 75 bilhões após uma oferta secundária de ações, acima dos US$ 57,6 bi em valor de mercado do Nubank segundo dados desta quinta-feira. O banco registrou perdas no fim de fevereiro. O executivo, porém, afasta a comparação:
— A gente não compete com o Nubank. Eles começaram com um perfil de cliente que precisava de inclusão (bancária) e conseguiram fazer isso de um jeito inteligente, mas hoje o balanço deles é muito concentrado no crédito. Nós temos um foco transacional, que não depende de crédito. Ou seja, crédito é um upside para nós — argumenta. — Agora a gente atende sim ao cliente de baixa renda, porque ele precisa ter acesso a benefícios.
A empresa fala abertamente que tem intenção de se tornar banco no Brasil. Lá fora, em 30 dos 40 países onde atua, a Revolut já é banco. Segundo Mota, porém, não há pressa:
—No Brasil, começamos há algum tempo e declaramos o interesse de, no longo prazo, nos tornarmos banco. Mas vamos respeitar, obviamente, o timing dos reguladores. Não temos pressa.
No passado, diferentes instituições financeiras estrangeiras tentaram operar no Brasil mas, por diferentes razões, recalcularam rotas. Mota defende, no entanto, que a incursão da Revolut não se trata de uma empresa inglesa tentando atuar no Brasil, mas da criação de uma empresa brasileira, e diz se inspirar no Santander, que cresceu no Brasil após a compra do Banespa e do Banco Real:
— Pensamos muito e estudamos o caso para aprender com os erros dos outros e não cometer erros repetidos. A grande decisão é que montamos uma instituição brasileira que se alavanca no capital e tecnologia estrangeira, mas o compromisso aqui já é de longo prazo. Temos um time completo com 225 brasileiros.
Ele descarta, porém, a aquisição de outra instituição financeira para acelerar esse processo de se tornar banco, o que só faria sentido para expandir o negócio para áreas onde a fintech não atua hoje.
— A não ser que eu achasse uma licença sem plano de negócio estruturado, que é muito raro. Comprar alguém exigiria achar um negócio que muito alinhado com o nosso, que seja fácil de complementar, num preço bom, com pouco problema para resolver. São coincidências pouco prováveis de acontecer.


