Seguradoras privadas estão desenvolvendo tecnologias de inteligência artificial para ampliar a cobertura de mais propriedades, especialmente diante do possível fim do financiamento temporário mais recente do National Flood Insurance Program (NFIP) — um programa federal de seguro contra enchentes dos Estados Unidos —, previsto para setembro.
Enchentes severas nos últimos anos — como em Ruidoso, no Novo México, em julho passado, e em Asheville, na Carolina do Norte, após o furacão Helene em setembro de 2024 — ocorreram em áreas onde o seguro contra enchentes não era obrigatório para financiamentos imobiliários. Isso representa um risco real para um número maior de pessoas em comparação aos anos anteriores, afirmou John Dickson, presidente da Aon Edge, divisão de seguros contra enchentes da Aon.
“Queremos fechar essa lacuna de cobertura. Há uma aplicação muito relevante para a IA. Vejo um papel para a IA em duas frentes: como as seguradoras podem utilizá-la para precificar seus negócios com mais eficiência — essa é a solução de IA de backoffice”, disse Dickson. “Já no contato com o cliente, a questão é: como a IA pode ajudar as pessoas a tomarem decisões melhores? Esse é parte do desafio.”
Mapas de risco de enchentes podem estar desatualizados há 10 anos ou mais, baseados em padrões climáticos que já mudaram. Esse é um gap que a IA pode ajudar a resolver, segundo Dickson.
“A IA pode ajudar uma pessoa a entender seu risco específico em relação aos eventos climáticos atuais, com os dados mais recentes disponíveis, e apoiar a melhor decisão de acordo com suas necessidades”, afirmou. “Além de localizar dados atualizados, a IA também é um recurso excepcional para assimilar, organizar e pensar em novas formas de usar esses dados.”
Seguradoras, corretoras e resseguradoras já utilizam IA para precificar riscos de enchentes, medir o apetite por esses riscos e analisar a acumulação de exposições, de acordo com Dickson. A Aon, em particular, utiliza IA e análises avançadas para processar grandes volumes de dados relevantes para esse tipo de risco.

“No caso de enchentes, IA e analytics avançado nos ajudam a ingerir grandes volumes de dados de perigo, exposição e perdas, permitindo oferecer aos clientes uma visão mais granular de onde estão suas acumulações, como diferentes cenários podem impactá-los e o que isso significa para suas estratégias de seguro”, explicou.
Com mais americanos se mudando para áreas com menor risco de enchentes, o uso de IA para identificar propriedades menos expostas pode gerar novas oportunidades de negócios para as seguradoras.
O uso de IA para avaliação de risco não é novidade, com modelos de linguagem sendo utilizados para estimar riscos catastróficos, observa Dickson. Recentemente, a Aon passou a usar IA também para comunicar riscos aos clientes e apoiá-los na decisão de contratação de coberturas. No total, a empresa está investindo US$ 1 bilhão em tecnologia e analytics ao longo de três anos, embora não divulgue quanto desse valor é destinado especificamente à IA.
A Previsico, plataforma de inteligência de enchentes com sede no Reino Unido, utiliza IA para validar suas previsões ao compará-las com evidências de eventos climáticos reais, segundo Mark Pinkerton, diretor de tecnologia da empresa.
“Atualmente, estamos aplicando IA para complementar nossos modelos hidrológicos, expandir para novos tipos de enchentes e transformar previsões probabilísticas em decisões claras e acionáveis para os clientes”, afirmou Pinkerton.
Já a Lilypad Insurance, seguradora especializada em residências costeiras, aplica IA aos dados de sinistros do NFIP para realizar análises mais precisas de risco, segundo Rajiv Matta, diretor de inovação.
“É responsabilidade do setor continuar desenvolvendo produtos sob medida para reduzir a lacuna de proteção”, disse. “A IA está contribuindo muito nesse processo — do design de produtos à análise de dados e à tecnologia. Antes, levava cerca de um ano para levar um produto da ideia à implementação. Hoje, esse ciclo foi reduzido para cerca de três meses, graças à capacidade de desenvolver sistemas rapidamente e operacionalizar a emissão de apólices.”


