A inteligência artificial já atravessa as linhas de cyber, responsabilidade profissional, D&O (responsabilidade de administradores e diretores) e crime, mas os corretores recebem cada vez mais uma pergunta mais fundamental: a tecnologia acabará precisando de um mercado de seguros só seu?
Uma enquete da Insurance Business no LinkedIn indica que muitos esperam ao menos alguma separação. Metade dos respondentes disse que o seguro específico para IA acabará se tornando uma linha comercial relevante, enquanto 22% esperam que isso aconteça rapidamente. Outros 14% afirmaram que o risco de IA continuará sendo tratado, em sua maior parte, pelas linhas já existentes.
Produtos exclusivos para IA já existem
O mercado já testa as duas abordagens.
A Armilla AI, coverholder (emissora de apólices com autorização delegada) do Lloyd’s, lançou em abril de 2025 uma apólice autônoma de responsabilidade por IA com cobertura afirmativa e, em janeiro de 2026, elevou os limites disponíveis para US$ 25 milhões. A cobertura é voltada a empresas que desenvolvem ou utilizam IA e pode responder a erros de modelo, resultados imprecisos e ações de agentes de IA.
Em fevereiro, Armilla e Chaucer lançaram o Vanguard AI, que combina as coberturas de cyber e de E&O (erros e omissões) de tecnologia da Chaucer com a apólice autônoma de responsabilidade por IA da Armilla. Regras de alocação predefinidas buscam esclarecer qual apólice responde quando um sinistro envolve ao mesmo tempo um evento cibernético, uma falha de tecnologia e o comportamento da IA.
A Munich Re também subscreve riscos específicos de IA por meio do aiSure, um conjunto de coberturas para responsabilidades contratuais, perdas financeiras e responsabilidades legais decorrentes de erros de desempenho da IA. Em fevereiro, a Mosaic Insurance firmou parceria com a Munich Re para oferecer o aiSure, com capacidade inicial de até US$ 15 milhões, para falhas de desempenho de IA definidas.
Outras seguradoras preferem manter a IA mais próxima das linhas tradicionais. A HSB, que integra o grupo Munich Re, lançou em março o AI Liability Insurance para pequenas e médias empresas, que cobre determinados pedidos de indenização por lesão corporal, danos materiais e danos à publicidade (advertising injury) decorrentes do uso de IA. A cobertura foi concebida para ser adicionada às apólices empresariais das seguradoras parceiras, e não vendida diretamente como apólice separada.
A natureza de “colcha de retalhos” do mercado foi apontada por Jennifer Wilson, da WTW, como fonte de ambiguidade para corretores, tanto no varejo quanto no atacado da cadeia. “O seguro ainda não alcançou o risco de IA”, disse Wilson. “Hoje, dependemos da cobertura silenciosa de IA nas apólices de cibersegurança e de tecnologia.”
Keith Savino, CEO nos EUA da seguradora de cyber Emergence, afirmou que a distinção começa por saber se a seguradora está de fato segurando a IA como um risco separado ou apenas permitindo que perdas provocadas por IA recaiam sobre uma apólice existente.
“Há uma diferença entre dizer ‘estou segurando IA’ e dizer ‘somos uma seguradora de cyber e não estamos excluindo a IA’ ou ‘somos uma seguradora de cyber e reconhecemos que a IA faz parte do risco que assumimos'”, disse Savino à Insurance Business.
“Acho que há seguradoras lançando exclusões porque seus formulários atuais provavelmente oferecem uma cobertura que elas nunca pretenderam oferecer. Por isso, elas não querem que um sinistro seja decidido na Justiça e que um juiz entenda haver cobertura onde nunca se pretendeu ter.”
Corretores diante da exposição silenciosa à IA
Isso obriga os corretores a identificar o que é cobertura afirmativa, o que é silencioso e o que foi expressamente excluído.
Comentando a enquete no LinkedIn, Evaa Saiwal, head de seguros de responsabilidade da Policybazaar For Business, disse: “Não vejo a IA se tornando uma linha comercial totalmente independente de forma generalizada. É menos um risco novo e único e mais uma nova causa de perda que atravessa as linhas existentes.”
Ela citou a responsabilidade profissional e E&O (PI/E&O) para resultados incorretos, exposições de privacidade e propriedade intelectual, perdas cibernéticas ou financeiras causadas por agentes autônomos e questões de D&O ligadas a governança e divulgação. Apólices independentes tendem a surgir onde a IA gera perdas fora dos gatilhos tradicionais, como deriva de modelo (model drift), alucinação, desempenho abaixo do esperado ou ações autônomas que causem prejuízo econômico sem violação cibernética ou negligência convencional.
Já Savino acredita que as posições das seguradoras devem continuar mudando à medida que o mercado aprende mais sobre essas exposições. “Isso ainda não está resolvido”, disse. “Volte daqui a três meses e veja se a resposta mudou.”


