*Por Hugues Bertin
Essa é mais uma postagem da coluna mensal Insurtech Vip Lounge, exclusiva do Insurtech.com.br. Todo mês Hugues Bertin traz uma nova insurtech da América Latina para nossos leitores conhecerem
Na América Latina, quando falamos de insurtech, é impossível não pensar na Pier, a neo seguradora brasileira focada em transformar a relação dos brasileiros com o seguro e que já soma US$ 42 milhões em financiamento. A empresa nasceu com uma proposta 100% digital, cresceu dentro do sandbox regulatório e começou com um modelo totalmente B2C.
Muitos a compararam à Lemonade; hoje converso com Camila Kataguiri, co-CEO, para entender como conseguiram se tornar uma companhia rentável em 2025.
A Pier surgiu com o propósito de transformar a relação dos brasileiros com o seguro, simplificando o acesso à proteção por meio de processos ágeis, transparentes e sem burocracia. Seu primeiro produto foi o seguro de celulares, pioneiro na cobertura de furto simples e na oferta de reembolsos rápidos, o que permitiu que a empresa se destacasse rapidamente. Mais adiante, lançaram o seguro automotivo, mantendo sempre o foco em tecnologia, eficiência e transparência. Hoje, ambos os produtos são comercializados tanto em um modelo direto ao consumidor quanto por meio de corretores e parcerias, permitindo que cada pessoa contrate da forma que lhe for mais conveniente.
A tecnologia está no centro da Pier. A empresa utiliza inteligência artificial ao longo de toda a jornada, desde a subscrição até os sinistros. Entre suas soluções próprias, destacam-se o Pier Bolt, um agente de IA que processa reembolsos de celulares de forma instantânea, e o Pier Scan, uma ferramenta que realiza inspeções automotivas em menos de um minuto, sem intervenção humana. Essa camada tecnológica permitiu à companhia construir produtos competitivos, acessíveis e com processos radicalmente mais simples do que os do mercado tradicional. Atualmente, atendem mais de 170 mil clientes, alcançaram R$ 150 milhões em faturamento em 2024 e projetam R$ 250 milhões em 2025. Possuem o selo RA1000 do Reclame Aqui, mantêm um NPS geral de 80 (e 90 em sinistros), trabalham com um CAC de apenas 11,2%, um loss ratio de 51,5% e um dos melhores margens técnicas do mercado, em torno de 35%.
Quando pergunto como conseguiram alcançar a rentabilidade no segundo e no terceiro trimestre de 2025, Camila resume em três pilares: precificação inteligente, eficiência operacional impulsionada por IA e diversificação de canais. Seu modelo preditivo permite ajustar preços de acordo com o risco real de cada cliente e reforça a prevenção a fraudes em um país onde cerca de 20% dos sinistros apresentam sinais suspeitos. Com processos como continuous underwriting, regras automatizadas e análise de dados comportamentais, a Pier conseguiu operar com precisão, acesso e eficiência. A expansão para corretores e parcerias B2B2C também permitiu ganhar escala e reduzir o custo de distribuição, sem perder o foco na experiência do cliente.
Um dos movimentos mais significativos da Pier em 2025 foi a decisão de começar a vender por meio de corretores, algo que surpreendeu quem a conhecia como uma insurtech 100% D2C. No entanto, Camila explica que essa evolução já estava no DNA da empresa: ampliar o acesso ao seguro implica ampliar também os canais. Para isso, lançaram o Portal do Sócio, criado em conjunto com os próprios corretores, pensado para resolver suas necessidades do dia a dia com processos simples, comissões flexíveis e atendimento especializado. Esse canal ganhou força sob a liderança de Flávio Rewa, CCO da companhia, e permitiu que a Pier se integrasse ao ecossistema de corretores de forma colaborativa e transparente.
A relação com os corretores passou de uma percepção de concorrência para uma aliança estratégica real. A Pier já trabalha com mais de 5.000 corretores em todo o Brasil e mantém acordos com redes relevantes como Seguralta, SegPartners, Klubi e Cota Fácil. Sua proposta é que o corretor mantenha total autonomia sobre sua carteira, tenha acesso a maior rentabilidade e conte com uma experiência digital ágil, apoiada por tecnologia e por um time especializado. Esse canal permitiu alcançar clientes diferentes dos atendidos no modelo B2C. No B2C, o produto é vendido por assinatura (funcionando como uma assinatura de Netflix, renovada automaticamente todos os meses). Já no Canal Corretor, o produto é vendido no formato anual, padrão do mercado e preferido pelos clientes dos corretores, o que mostra que se trata de públicos distintos. E um ponto-chave: a empresa garante que o cliente do corretor sempre será do corretor, o que fortaleceu a confiança e a reputação da companhia.
Em um mercado cada vez mais concentrado, os corretores precisavam de novas alternativas e encontraram na Pier uma empresa focada em democratizar o acesso ao seguro, aumentar a penetração no Brasil — estagnada em torno de 30% — e atender perfis raramente considerados pelas seguradoras tradicionais, como a Classe Bônus 0, que costuma não ter histórico prévio. Graças ao uso de dados comportamentais, a Pier consegue compreender melhor esses consumidores, oferecer preços acessíveis e operar de forma rentável mesmo com riscos mais elevados.
Do ponto de vista de uma insurtech que nasceu em meio à agenda de inovação, a Pier também destaca que o Brasil ainda tem espaço para evoluir em sua regulação. A empresa foi protagonista na criação do sandbox junto à SUSEP e avalia que novas normas deveriam se adaptar melhor a produtos como os modelos mensais. A discussão atual sobre a Lei Complementar 213 pode abrir oportunidades para segmentos subatendidos, desde que garanta regras equilibradas entre seguradoras e uma proteção real ao consumidor. A tecnologia, somada a uma estrutura de custos mais eficiente, é uma ferramenta-chave para oferecer produtos adequados, acessíveis e sustentáveis para quem vive em contextos de maior incerteza e risco.
A Pier já se tornou uma das grandes success stories da América Latina.
SOBRE O AUTOR:

Hugues Bertin é CEO da Digital Insurance LatAm, uma empresa de consultoria especializada em estratégias de inovação e insurtech, e também é sócio do fundo de investimentos HCS Capital. Como palestrante internacional, ele foi escolhido como o principal influenciador em insurtech e inovação em seguros pelo The Latam Insurtech e Lightico em suas classificações globais. Seu objetivo é impulsionar o setor de seguros para frente no mundo que está por vir.
Ele é co-fundador e diretor sem fins lucrativos da Insurtechile e da AIC (Associação Insurtech da Colômbia). Ele também é Diretor Executivo do CDI+Latam, a certificação de referência em seguros digitais para a América Latina. Além disso, ele co-organiza o Fórum Insurtech Latam, o maior evento da América Latina, e atua no Conselho Consultivo do InsurtechConnect, o maior evento de insurtech do mundo.
Hugues é atuário pelo Instituto de Estatística de Paris (França) e possui um Executive MBA pelo IAE (Argentina). Ele ocupou vários cargos executivos na BNPP Cardif, Mercer e PwC por mais de 20 anos na indústria de seguros, abrangendo dois continentes: Europa e América Latina. Ele liderou ou aconselhou jogadores da indústria de seguros em projetos de transformação digital e inovação.

