Proteção veicular exige prevenção, resposta rápida e escala, afirma André Saliba, CEO da Getrak

Em entrevista ao Portal Insurtech.com.br, executivo fala sobre o avanço da tecnologia na segurança veicular, os investimentos da Getrak em IA e equipamentos e os desafios de um mercado que passa por transformação tecnológica e regulatória

A segurança veicular continua entre os temas mais sensíveis para o ecossistema de seguros e proteção patrimonial no Brasil. Em um ambiente marcado por alta incidência de roubos e furtos, pressão por eficiência operacional e necessidade crescente de escala, o uso de tecnologia deixou de ser apenas um diferencial e passou a ocupar posição estratégica dentro da gestão de risco.

Nesse contexto, empresas que atuam com rastreamento, monitoramento, recuperação e inteligência operacional vêm ampliando sua relevância junto a seguradoras e associações de proteção veicular, principalmente à medida que o mercado exige respostas mais rápidas, processos mais integrados e maior capacidade de prevenção. Ao mesmo tempo, temas como inteligência artificial, modernização de equipamentos e redesenho de plataformas entram de forma mais concreta na agenda do setor.

Para falar sobre esse momento e sobre a visão da Getrak para os próximos anos, o Insurtech.com.br conversou com André Saliba, CEO da companhia. Na entrevista, o executivo aborda a evolução da proteção veicular no país, o papel da prevenção na redução de perdas, o impacto da IA nas operações e os investimentos recentes da empresa em novas soluções e equipamentos.

José Prado: O mercado de proteção veicular convive há anos com um cenário complexo no Brasil, marcado por roubos, furtos e perdas relevantes para as operações. Na sua avaliação, como esse ambiente tem evoluído e o que ele exige hoje das empresas que atuam no setor?

André Saliba: O setor vive um contexto de alta pressão e isso não é algo abstrato. Estamos falando de um ambiente em que um único evento pode representar um prejuízo muito significativo para uma operação, em alguns casos chegando à casa de centenas de milhares de reais. Quando olhamos para a realidade brasileira, com índices ainda muito elevados de roubo e furto, fica claro que esse tema não pode mais ser tratado apenas como uma questão operacional, mas como uma discussão estratégica para o negócio.

Ao longo da minha trajetória na Getrak, sempre tive a convicção de que tecnologia só tem valor quando resolve dores reais do mercado. E, no nosso caso, o desafio é muito objetivo: como ajudar empresas do setor a atuar de forma mais inteligente diante de um problema recorrente e de grande impacto financeiro. A Getrak nasceu há mais de vinte anos com a proposta de usar tecnologia para tornar o mundo mais seguro, e essa visão segue muito atual. Hoje, mais do que nunca, o mercado exige soluções integradas, capacidade analítica e rapidez de resposta.

José Prado: Durante muito tempo, boa parte do mercado se estruturou para reagir ao evento, especialmente após o roubo ou furto. Esse modelo ainda é suficiente ou a prevenção passou, de fato, a ocupar um papel mais central?

André Saliba: Eu diria que a prevenção deixou de ser um elemento complementar e passou a ser um dos pilares da gestão de risco. Reagir bem continua sendo importante, claro, porque nem todos os eventos podem ser evitados. Mas operar apenas de forma reativa já não sustenta a eficiência que o mercado precisa.

Quando colocamos a prevenção no centro da estratégia, o impacto aparece em várias frentes. Você reduz perdas, melhora a sustentabilidade da operação, aumenta a previsibilidade e fortalece a confiança de quem está na ponta, seja o segurado, seja o parceiro de negócio. Hoje, a tecnologia já permite que seguradoras e associações atuem de maneira muito mais proativa. A definição de áreas de risco, o monitoramento de trajetos e a leitura mais inteligente do comportamento operacional ajudam a evitar situações críticas antes mesmo que elas se concretizem.

Essa mudança de mentalidade é muito relevante. O setor precisa deixar de olhar a prevenção como custo adicional e passar a enxergá-la como instrumento de eficiência e de competitividade.

José Prado: Quando se fala em prevenção, muitas vezes o discurso fica genérico. No caso da Getrak, como essa visão se materializa em soluções concretas para o mercado?

André Saliba: Esse é um ponto importante, porque a prevenção só faz sentido se ela se traduz em aplicação prática. No nosso caso, isso passa tanto por inteligência embarcada quanto por soluções específicas para momentos mais sensíveis da operação. Um exemplo é o GBlock, que foi desenvolvido justamente para agregar uma camada adicional de proteção em situações de tentativa de roubo ou furto.

A lógica é simples: reduzir a probabilidade de perda antes que ela aconteça. É isso que orienta nosso investimento em tecnologia. Neste ano, por exemplo, vamos anunciar uma nova versão do GBlock, mais moderna e com instalação mais simples, justamente para ampliar a capacidade de adoção e eficiência. O que buscamos não é apenas acrescentar tecnologia ao processo, mas fazer com que ela gere impacto real na proteção do veículo e na operação do cliente.

José Prado: Ainda assim, mesmo com a prevenção, parte dos eventos acontece. Nesses casos, a capacidade de resposta passa a ser decisiva. O que define uma operação eficiente nesse segundo momento?

André Saliba: Sem dúvida, a capacidade de resposta é o segundo grande eixo. Uma estratégia de prevenção sólida é fundamental, mas a operação também precisa estar preparada para agir com rapidez e consistência quando o evento ocorre. E aí entra um indicador muito relevante para o setor, que é o índice de recuperação de veículos.

Hoje, conseguimos apoiar clientes a alcançar índices de recuperação que chegam a 97%, o que é bastante expressivo. Mas esse resultado não vem de um único fator. Ele é consequência de uma combinação entre tecnologia, processos bem desenhados, uso de dados e especialização operacional. Não basta ter ferramentas; é preciso saber operar com método, disciplina e escala.

Foi com essa visão que estruturamos o Recupera360, uma operação dedicada a dar suporte completo ao mercado de segurança veicular. Isso envolve desde o monitoramento contínuo até a execução de processos operacionais que, em muitos casos, exigiria uma estrutura interna robusta por parte das empresas. Em um mercado pressionado por eficiência, esse apoio faz diferença.

José Prado: Isso muda também a forma como as empresas pensam crescimento? Ou seja, escalar já não significa necessariamente ampliar a estrutura interna?

André Saliba: Exatamente. Esse é um ponto cada vez mais crítico. Nem toda empresa precisa aumentar time e complexidade interna para crescer. Em muitos casos, o crescimento sustentável passa por contar com parceiros especializados, capazes de sustentar a operação com qualidade, velocidade e previsibilidade.

Na minha visão, a escala com eficiência é uma das grandes questões do setor hoje. Crescer sem perder controle operacional, sem comprometer qualidade e sem pressionar excessivamente a estrutura interna virou uma necessidade. E esse equilíbrio tende a ser cada vez mais importante à medida que o mercado amadurece e a concorrência aumenta.

José Prado: Nos últimos anos, a inovação virou quase uma obrigação no discurso das empresas. Mas, na prática, inovar continua sendo um desafio. Como a Getrak enxerga esse processo?

André Saliba: Eu gosto de tratar inovação como responsabilidade contínua, não como projeto isolado. Quando a inovação aparece apenas como narrativa, ela tem pouco valor. O que realmente importa é a capacidade de gerar impacto concreto para o cliente e para a operação.

Na Getrak, temos investido de forma consistente nisso. Foram mais de R$35 milhões investidos em tecnologia nos últimos anos, sempre com foco na evolução real do setor. Um exemplo foi o redesign da nossa plataforma, que nasceu a partir dos feedbacks dos próprios clientes. O objetivo era muito claro: simplificar a operação, melhorar a performance e tornar o uso mais intuitivo. Esse tipo de movimento mostra como a inovação precisa estar conectada à experiência de quem usa a solução no dia a dia.

José Prado: A inteligência artificial entrou definitivamente na agenda do mercado. No caso da Getrak, onde a IA começa a gerar aplicação prática dentro da operação?

André Saliba: A IA vem deixando de ser uma promessa genérica para ganhar espaço em processos muito concretos. Estamos avançando com os Agentes de IA voltados a reduzir custos operacionais, aumentar eficiência e permitir o ganho de escala, especialmente em frentes como previsibilidade de sinistros e recuperação veicular.

O mais importante aqui é não tratar a inteligência artificial como tendência pela tendência. O foco precisa estar em como ela melhora a tomada de decisão, aumenta produtividade e ajuda o cliente a operar melhor. Quando conseguimos transformar IA em vantagem competitiva real, ela deixa de ser apenas novidade tecnológica e passa a ter relevância estratégica.

Nós acreditamos bastante nesse caminho e entendemos que ele terá impacto importante no setor. Não se trata apenas de automatizar tarefas, mas de tornar a operação mais inteligente, responsiva e sustentável.

José Prado: Além de software e plataforma, vocês também mencionam evolução em equipamentos. Qual é a importância desse investimento mais amplo no ecossistema de segurança veicular?

André Saliba: É fundamental. Quando falamos em segurança veicular, não dá para pensar apenas em software ou apenas em operação. O ecossistema precisa funcionar de maneira integrada. Por isso, além da plataforma, temos apostado em melhorias importantes nos equipamentos.

Nos rastreadores, por exemplo, estamos trazendo o GTK LW+ 4G, que já vem preparado para a transição de rede e oferece melhor performance para o rastreamento veicular com o uso de Bluetooth. Já o GBlock passa a contar com uma versão Plug’n’Play, facilitando a instalação. Tudo isso está ligado a uma visão de longo prazo: ouvir o cliente, entender os desafios reais de cada parceria e desenvolver inovações que façam sentido para o mercado.

José Prado: O setor de proteção veicular passa também por transformações regulatórias e por uma mudança mais ampla na forma como as operações são estruturadas. Olhando à frente, quais atributos devem diferenciar as empresas mais competitivas?

André Saliba: Eu vejo o mercado caminhando para um modelo em que integração será a palavra-chave. As empresas que vão se destacar são aquelas que conseguirem conectar, de forma consistente, três pilares: prevenção inteligente, resposta rápida e eficiente e operação escalável e sustentável.

Não basta ser forte em uma única ponta. O diferencial competitivo passa por integrar essas capacidades e transformá-las em entrega contínua para o cliente. É isso que tende a separar as operações mais maduras das demais, especialmente em um setor que está se tornando mais exigente, tanto do ponto de vista tecnológico quanto regulatório.

Na Getrak, seguimos comprometidos com essa construção. Nossa visão é apoiar o mercado justamente nessa convergência entre prevenção, eficiência operacional e tecnologia aplicada.

José Prado: Para encerrar, quando se fala tanto em tecnologia, inovação e automação, qual é o ponto que o setor não pode perder de vista?

André Saliba: Que tecnologia é meio, não fim. No fim do dia, o que está em jogo é proteção. Estamos falando de proteger pessoas, preservar patrimônio e garantir a continuidade dos negócios. Se a tecnologia não contribuir de maneira objetiva para isso, ela perde relevância.

Acredito que o setor amadureceu muito e continuará evoluindo, mas o fundamento permanece o mesmo: resolver problemas reais com eficiência, responsabilidade e visão de longo prazo.

Sobre o entrevistado

André Saliba é CEO da Getrak, empresa com mais de 20 anos de atuação em rastreamento e segurança veicular. Formado em Administração e com pós-graduação em Marketing, também atua como mentor de startups.

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