Chuvas extremas e calor redesenham risco climático no Brasil e desafiam mercado de seguros

Projeções da i4sea indicam aumento de chuvas extremas em 66% do território até 2075; setor pagou R$ 7,3 bilhões em indenizações climáticas em 2024, enquanto seguros cobrem, em média, apenas 9% das perdas econômicas provocadas por desastres climáticos no país

O mercado de seguros brasileiro terá de reaprender a medir riscos que pareciam conhecidos. Estudos da i4sea, plataforma de inteligência climática aplicada à gestão de riscos, mostram que a mudança do clima deve alterar de forma desigual a exposição das regiões do país a chuvas extremas e calor. Na prática, o histórico de sinistros, base tradicional da subscrição e da precificação de apólices, deixa de ser suficiente para estimar as perdas das próximas décadas.

A conta climática já aparece nos balanços. Em 2024, as seguradoras pagaram R$ 7,3 bilhões em indenizações relacionadas a eventos climáticos, o equivalente a 12% dos R$ 60,4 bilhões em indenizações considerados no Radar de Eventos Climáticos e Seguros no Brasil, levantamento da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) com a EY. Os ramos patrimonial (58%), automóvel (19%), rural (15%) e habitacional (6%) concentraram os pagamentos.

A pressão chega em um momento de expansão do setor. O setor segurador arrecadou R$ 764,5 bilhões em 2025, alta de 1,8% sobre 2024, segundo a CNseg. Os seguros de danos e responsabilidades, que incluem ramos diretamente expostos a eventos climáticos, avançaram 7,5%, para R$ 144,5 bilhões em prêmios. 

Chuva e calor avançam de forma desigual

Em uma das análises da i4sea, baseada na mediana de 26 modelos climáticos CMIP6, 66% do território brasileiro apresenta tendência de aumento das chuvas extremas acumuladas em cinco dias até 2075, com destaque para o Sul. Em outras partes do país, a tendência é diferente.

O calor adiciona outra camada. Em estudo específico sobre a cidade de São Paulo, a i4sea projeta que a capital pode chegar a 85,5 dias de calor extremo por ano até 2075, no cenário intermediário de emissões analisado. Episódios hoje considerados excepcionais podem passar a ocupar uma parcela muito maior do calendário.

“O desafio para a seguradora é entender que o risco climático não é estático. Não basta olhar onde ocorreram mais eventos no passado. É preciso avaliar como aquela ameaça deve evoluir ao longo dos próximos anos e chegar a uma granularidade que permita diferenciar a exposição de cada território”, afirma Mateus de Oliveira Lima, CEO e cofundador da i4sea.

Efeito varia conforme o ramo

Patrimonial e habitacional. São os ramos mais diretamente atingidos pelas chuvas extremas, com danos por alagamento, inundação, deslizamento, vendaval e granizo. O efeito já aparece nas estatísticas regionais: em Santa Catarina, as indenizações cresceram 11% no residencial, 7,3% no habitacional e 75,4% no empresarial em 2025. No Rio Grande do Sul, os pagamentos do seguro residencial subiram 37,9% em janeiro de 2026. A base de proteção, no entanto, segue estreita: apenas 17% das residências brasileiras têm seguro, segundo estimativas da CNseg com base em dados do IBGE e da FenSeg. 

Automóvel. O ramo respondeu por quase um quinto das indenizações climáticas em 2024 e pagou R$ 35,6 bilhões em sinistros no total em 2025, segundo a CNseg. Alagamentos, inundações e granizo podem estar cobertos, a depender das condições contratadas na apólice, e se somam à alta do custo médio dos sinistros. Em Santa Catarina, as indenizações do seguro auto subiram 15,3% no ano passado. Como apenas 29% da frota nacional tem seguro, boa parte das perdas com veículos em enchentes fica sem cobertura.

Rural. As secas, embora menos frequentes que as chuvas intensas, são os eventos que geram os maiores danos financeiros, segundo o Radar da CNseg, por atingirem grandes áreas por longos períodos. O calor extremo agrava o quadro ao elevar o estresse térmico e hídrico sobre lavouras e rebanhos. Ainda assim, o segmento encolheu: a arrecadação do seguro rural caiu 8,8% em 2025, para R$ 12,9 bilhões. Em 2026, o governo bloqueou R$ 461,7 milhões do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e, posteriormente, outros R$ 56,3 milhões foram retirados do orçamento por remanejamento. 

Vida e saúde. Os efeitos do calor sobre a saúde adicionam uma frente de risco para seguros de pessoas e saúde. Estudo da Fiocruz e da Universidade Federal da Bahia (UFBA) divulgado em junho estimou que cerca de 120 mil mortes registradas no Brasil entre 2000 e 2019 estiveram associadas a ondas de calor, 0,6% dos óbitos do período, excluídas causas externas. Os riscos mais elevados foram observados em mortes por causas cardiovasculares e respiratórias e entre idosos. A pesquisa também identificou maior risco de internações por doenças respiratórias, renais e gastrointestinais durante episódios de calor extremo. Outro estudo internacional, liderado no Brasil pela Faculdade de Medicina da USP, projeta que, nas cidades latino-americanas analisadas, a participação do calor no total de mortes pode mais que dobrar entre 2045 e 2054, de 0,87% para 2,06%. 

Granularidade vira vantagem competitiva

Para a i4sea, a principal consequência dessas projeções é que não existe um único perfil de risco climático para o país. Enquanto o Sul aparece entre as áreas de maior intensificação das chuvas extremas, outras regiões apresentam comportamentos distintos. No calor, mesmo centros urbanos fora das áreas de maior aumento de precipitação podem enfrentar uma mudança expressiva de exposição.

“Duas áreas podem estar no mesmo estado e apresentar níveis de exposição muito diferentes. Para o mercado segurador, quanto maior a capacidade de enxergar essa diferença, melhor será a decisão sobre onde assumir risco, como precificá-lo e onde existem oportunidades de ampliar a carteira”, diz Lima.

A leitura interfere tanto na precificação quanto na gestão de carteiras. Ao identificar áreas com tendência de intensificação de determinada ameaça, as seguradoras podem antecipar mudanças no perfil de risco. Regiões com menor exposição relativa, por outro lado, podem representar oportunidades de expansão de produtos e clientes.

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