AmTrust anuncia planos para ficar maior que o Lloyd’s em Londres

A seguradora especializada de Nova York contratou o veterano de Canary Wharf Sir George Iacobescu para planejar um arranha-céu que rivalizaria com o Shard — e o projeto revela muito sobre a importância de Londres para o negócio da empresa.

AmTrust Financial Services é conhecida por agentes e corretores dos EUA pelas linhas de compensação trabalhista (workers’ comp) para pequenas empresas, apólices multirriscos para negócios (business owner’s policies) e programas de garantia estendida, operados a partir da sede em Lower Manhattan. Em Londres, está prestes a se tornar algo bem diferente: a incorporadora de um dos edifícios mais altos do Reino Unido.

A seguradora, com sede em Nova York, prepara planos para demolir o Exchequer Court, prédio de escritórios de sua propriedade no número 33 da St Mary Axe, na City de Londres, e erguer no lugar uma torre de 70 andares e cerca de 300 metros – perto de 1.000 pés –, segundo notícias divulgadas nesta semana. O terreno fica no centro do bairro dos seguros de Londres, em frente ao Gherkin (o “pepino em conserva”, de nome bastante descritivo) e a poucos minutos a pé do Lloyd’s.

Para os corretores americanos, o ponto interessante não é o horizonte da cidade, mas o que o projeto diz sobre onde a AmTrust enxerga seu futuro. Londres é onde se subscreve boa parte da capacidade por trás dos negócios de linhas especializadas e de MGAs (agentes de subscrição com poderes delegados) dos EUA: os EUA respondem por cerca de metade do prêmio global do Lloyd’s, e o Lloyd’s forneceu mais de US$ 20 bilhões em capacidade de linhas excedentes (surplus lines) nos EUA em 2024, cerca de 16% desse mercado, segundo dados do Triple-I (Insurance Information Institute). A AmTrust, seguradora com rating A- que registrou cerca de US$ 8 bilhões em prêmios brutos em 2023, acaba de reorganizar seu próprio negócio de MGAs em torno desse fluxo de capital.

Quem toca o projeto é Sir George Iacobescu. O engenheiro nascido na Romênia passou 36 anos transformando Canary Wharf, um trecho abandonado das antigas docas de Londres, no segundo distrito financeiro da cidade, antes de se aposentar da presidência do conselho da Canary Wharf Group em julho de 2024.

A torre teria cerca de 1 milhão de pés quadrados de escritórios. Uma consulta pública deve ser aberta neste mês, e um pedido de licença de construção à City of London Corporation – a autoridade local da Square Mile, o equivalente londrino ao Distrito Financeiro de Nova York – é esperado para o início de 2027. Se for aprovado, a AmTrust quer o edifício concluído até 2033.

Chaya Cooperberg, diretora de pessoas e comunicação (chief people and communications officer) da AmTrust, apresentou o projeto como um voto de confiança na cidade. “Este é um compromisso de longo prazo que estamos assumindo com Londres”, afirmou, acrescentando que a AmTrust espera que a torre ajude a atender à demanda por escritórios de alto padrão.

Por que uma seguradora de Nova York constrói em Londres

O Exchequer Court não é uma compra especulativa. A AmTrust é dona do imóvel desde o início de 2017, quando pagou £ 105 milhões – cerca de US$ 130 milhões à época –, segundo pesquisa da Savills. O prédio também é a base londrina da AmTrust International e a sede registrada de sua seguradora no Reino Unido, a AmTrust Specialty Limited, que operava como AmTrust Europe até janeiro de 2025.

O negócio no Reino Unido mudou de formato no último ano. Em dezembro de 2025, a AmTrust concluiu seu acordo com a Blackstone Credit & Insurance para transferir sete MGAs e negócios de comissões dos EUA, do Reino Unido e da Europa continental para uma nova plataforma independente, a ANV Group Holdings. A AmTrust manteve participação relevante e assinou um acordo de dez anos para continuar fornecendo capacidade de subscrição.

Uma das sete é a Arc Legal, especialista britânica em seguros de despesas jurídicas, que desde então nomeou um novo CEO enquanto a ANV se prepara para uma ofensiva de crescimento no Reino Unido. A AmTrust também segue usando seu próprio balanço na Grã-Bretanha: recentemente ampliou a capacidade da Arkel para £ 380 milhões, em meio ao aperto do mercado britânico de seguros patrimoniais não padrão (non-standard).

A visão dos EUA

O projeto de Londres chega quando a AmTrust se reposiciona em casa. Em fevereiro, a empresa rebatizou sua unidade de garantias e riscos especializados como AmTrust Risk Solutions, que abrange crédito, fiança (surety), proteção jurídica, viagens, locação residencial (renters) e programas de nicho, além de seus contratos de garantia e serviço.

A cisão da ANV também se encaixa em uma tendência mais ampla. O canal de MGAs dos EUA atingiu cerca de US$ 128 bilhões em prêmios em 2025, e as seguradoras ganham cada vez mais seu espaço como provedoras de capacidade, e não como donas da distribuição. Londres é central nesse negócio: a Conning descreveu o Lloyd’s como historicamente a maior fonte individual de capacidade para as MGAs dos EUA. Um endereço a poucos quarteirões do Lloyd’s não é apenas uma questão de prestígio.

Um horizonte disputado

Com cerca de 300 metros (aprox. 985 pés), a torre ficaria logo abaixo do Shard, o edifício mais alto do Reino Unido, com 309,6 metros (1.016 pés), e ao lado da One London, torre planejada de mesma altura no terreno da antiga sede da Aviva. O restante do mercado continua por perto: o Lloyd’s se comprometeu a permanecer em sua sede em One Lime Street até pelo menos 2035.

O que significa para as seguradoras

Um edifício desse porte é um grande risco a ser colocado no mercado: seguro de riscos de engenharia durante a construção (builder’s risk), cobertura de atraso no início de operação (delay in start-up) e, depois de pronto, vícios ocultos (latent defects). A AmTrust conhece o território: criou em 2025 um grupo de builders risk dentro de sua divisão de E&S (excess and surplus lines, as linhas excedentes).

Londres traz uma peculiaridade que incorporadores americanos raramente enfrentam. Pela lei inglesa, vizinhos podem ter um “direito à luz” (right to light) independente da licença de construção; assim, uma torre pode ser aprovada e ainda assim enfrentar reclamações de edifícios que ficarem sombreados. A maioria dessas disputas na City termina em indenizações negociadas, e não nos tribunais, e o seguro especializado de direito à luz é parte rotineira dos grandes empreendimentos londrinos.

Nada disso será posto à prova até que a consulta termine e o pedido seja protocolado. Mas a mensagem que vem de Maiden Lane, em Nova York, é clara: a AmTrust não quer apenas permanecer no distrito de seguros de Londres, quer um lugar no seu horizonte.

Com informações de Insurance Business.

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