Alice capta US$ 40 milhões em série D liderada pelo IFC e acelera aposta em operação nativa em IA

Rodada marca a entrada de investidores de desenvolvimento na operadora de planos de saúde para pequenas empresas, que atingiu R$ 1,2 bilhão em receita recorrente anualizada e mira R$ 2 bilhões em 2027

A healthtech Alice levantou uma série D de US$ 40 milhões liderada pelo IFC, o braço de investimentos privados do Banco Mundial, segundo reportagem de Guilherme Guerra publicada nesta segunda-feira (19) pelo Pipeline, do Valor. Com os recursos, a operadora de planos de saúde pretende dobrar a receita para R$ 2 bilhões em 2027.

O DEG e o FinnFund, braços de instituições de desenvolvimento da Alemanha e da Finlândia, acompanharam o cheque. Kaszek, ThornTree Capital, Next Billion Ventures e Canary, que já estavam no quadro de investidores, completaram a rodada. O valuation não foi divulgado.

Primeira captação em equity desde 2022

É a primeira rodada em equity da Alice desde a série C de 2022, quando a empresa captou US$ 127 milhões com o SoftBank. Em 2025, a startup levantou uma extensão de US$ 22 milhões em notas, agora convertidas em participação.

O SoftBank ficou de fora da série D. O grupo japonês vendeu parte de sua posição para a Canary, que ampliou a fatia, e deixou o conselho da empresa. “Eles estão em uma posição conhecida de desinvestimento no Brasil, e por isso eles decidiram não fazer o follow-on na Alice”, disse ao Pipeline o CEO André Florence, que relacionou a decisão à estratégia global do fundo de concentrar apostas em negócios intensivos em inteligência artificial nos Estados Unidos.

O que diz o registro do IFC

A página de divulgação do projeto 52338 (https://disclosures.ifc.org/project-detail/SII/52338/alice), mantida pelo IFC, descreve a Alice como uma empresa brasileira de tecnologia e saúde, fundada em 2019, que oferece planos de saúde empresariais para micro, pequenas e médias empresas por meio de um modelo de cuidado próprio. Esse modelo combina tecnologia, atenção primária, coordenação do cuidado e cuidado baseado em valor.

O documento indica um investimento em equity de até US$ 10 milhões por parte do IFC, com aprovação, assinatura e aporte registrados em 4 de junho de 2026. Na avaliação de impacto, a instituição afirma esperar que o modelo da Alice, que se afasta da abordagem centrada no hospital e na remuneração por procedimento, amplie o acesso a saúde de qualidade e exerça pressão competitiva para que outras operadoras adotem modelos semelhantes.

Refundação em torno da IA

Segundo o Pipeline, a rodada chega depois de um processo que Florence chama de “refundação”, com o objetivo de tornar a Alice uma operadora nativa em IA, mais ágil e com custos menores. Na área de tecnologia, por exemplo, os programadores passaram a revisar códigos escritos pela própria IA, com equipe menor e produtividade maior. “Estamos em um processo de refundar a cultura da empresa e nos perguntamos: se fundássemos a Alice hoje, como ela seria?”, afirmou o executivo.

Florence, com passagens por Goldman Sachs e Lazard, fundou a Alice em 2019 com Matheus Moraes, presidente da 99 até 2018 e hoje COO da healthtech, e com Guilherme Azevedo, criador do Dr. Consulta.

De acordo com o CEO, a revisão de processos dos últimos 12 meses já trouxe impacto financeiro positivo. Neste mês, a Alice superou pela primeira vez R$ 1,2 bilhão em receita recorrente anualizada, alta de 70% em relação a 2025, e passou de 100 mil clientes. “Essa rodada é para continuar a nossa estratégia de crescimento. A gente cresce bastante em relação à nossa receita, e isso consome capital”, disse. A empresa afirma reinvestir todo o caixa gerado, com foco principal nas pequenas empresas da Região Metropolitana de São Paulo.

Alice AI como porta de entrada

Em novembro, a operadora deve lançar a Alice AI, um chatbot que reúne informações dos clientes, responde dúvidas médicas, acessa prontuários, consulta a rede credenciada e incentiva a realização de exames e consultas. A fase inicial de testes terá 10 mil usuários.

O plano é abrir depois a ferramenta para pessoas fora da base de clientes, como vitrine para aquisição. A cobrança por recursos adicionais via assinatura está em estudo. “Vamos melhorar o engajamento do usuário com a saúde”, disse Florence.

Análise: o que a rodada sinaliza

A composição da série D chama atenção. Com IFC, DEG e FinnFund, capital de desenvolvimento passa a ocupar parte do espaço deixado por um investidor de crescimento global que reduziu exposição ao Brasil. O próprio registro do IFC associa o aporte a metas que vão além do retorno financeiro, como ampliar o acesso e estimular o cuidado baseado em valor no setor, e prevê que a instituição atue como investidora-âncora de longo prazo.

A fala de Florence sobre consumo de capital resume a equação de uma operadora em expansão acelerada: uma alta de 70% na receita recorrente exige caixa, e sair de R$ 1,2 bilhão para R$ 2 bilhões em 2027 pressupõe manter um ritmo semelhante. A tese de operação nativa em IA entra justamente como alavanca de eficiência para equilibrar crescimento e uso de recursos. Os números de ganho financeiro da refundação, porém, não foram detalhados.

Já a Alice AI aponta para um movimento que vale acompanhar: usar um assistente de saúde aberto ao público como canal de relacionamento e de entrada de novos clientes. Por envolver prontuários e dúvidas médicas, a iniciativa deve ser observada também à luz das regras da ANS e da legislação de proteção de dados.

Para o mercado de insurtechs, ficam três pontos de atenção: se o capital de desenvolvimento passará a aparecer com mais frequência em rodadas de saúde suplementar, se a operação nativa em IA se traduzirá em indicadores de custo publicáveis e se o chatbot conseguirá converter engajamento em contratos.

Fontes: Pipeline (Valor), “Alice levanta US$ 40 milhões em série D com braço do Banco Mundial”, de Guilherme Guerra, 19/10/2026 (https://pipelinevalor.globo.com/startups/noticia/alice-levanta-us-40-milhoes-em-serie-d-com-braco-do-banco-mundial.ghtml); IFC, Project Information Portal, projeto 52338 – Alice (https://disclosures.ifc.org/project-detail/SII/52338/alice).

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