A Letra de Risco de Seguro (LRS) é a versão brasileira dos Insurance-Linked Securities (ILS), instrumentos usados há décadas nos Estados Unidos, na Europa e nas Bermudas para transferir riscos de seguro a investidores do mercado de capitais. Criada pela Lei nº 14.430/2022 e regulamentada pela Resolução CNSP nº 453/2022, a LRS só pode ser emitida por um tipo específico de companhia: a Sociedade Seguradora de Propósito Específico (SSPE).
Na prática, a SSPE assume riscos de uma seguradora, resseguradora, entidade de previdência, operadora de saúde ou até de empresas, que são chamadas de contraparte. Em seguida, ela financia esses riscos emitindo LRS para investidores. Se houver sinistro coberto, os recursos captados pagam a contraparte. Se não houver, o investidor recebe o principal e a remuneração. Cada operação tem patrimônio separado, o que isola os riscos entre emissões.
Para a contraparte, a vantagem é liberar capital e ampliar a capacidade de subscrição. Para o investidor, é acesso a um ativo pouco correlacionado com juros, câmbio e ciclos econômicos.
SSPEs autorizadas pela Susep:
Até outubro de 2026, três SSPEs receberam autorização definitiva da Superintendência de Seguros Privados (Susep) para emitir LRS em todo o território nacional. Abaixo, detalhamos cada uma:
1- IRB(SSPE)
Subsidiária integral do IRB(Re), maior resseguradora do país, foi a primeira SSPE autorizada pela Susep, em dezembro de 2024, no segmento S1. Operava com o nome Andrina e foi rebatizada em 2026 para se alinhar à marca do grupo. Em maio de 2025, fez a primeira emissão de LRS do Brasil: R$ 33,7 milhões, securitizando riscos da carteira de seguro garantia do próprio IRB(Re), com estruturação do Itaú BBA e registro na B3. A IRB(SSPE) faz parte do ecossistema do grupo, ao lado das novas seguradoras IRB(Seg) Patrimonial e IRB(Seg) Vida, da IRB(Asset) e do IRB(P&D). Website: irbre.com.
2- Galápagos Capital SSPE
Controlada pela gestora Galapagos Capital, foi autorizada em dezembro de 2024, no segmento S3, a primeira nessa categoria. É hoje a SSPE mais ativa do mercado, com três emissões: R$ 100 milhões em dezembro de 2025, R$ 13,5 milhões em abril de 2026 e R$ 126 milhões em maio de 2026. Esta última é a maior LRS já emitida no país e a primeira com distribuição ampla a investidores, tendo a Avla Brasil como contraparte. Website: galapagoscapital.com.
3- BTG Pactual SSPE
A mais recente do grupo foi autorizada em agosto de 2026 pela Portaria DIORE/Susep nº 157, no segmento S2. A companhia tem capital social de R$ 3 milhões e é controlada indiretamente pelo Banco BTG Pactual. A entrada de um dos maiores bancos de investimento da América Latina sinaliza o interesse do mercado financeiro na nova classe de ativos. Até o fechamento deste guia, não havia emissão anunciada. Website: btgpactual.com.
Contexto e Impacto
Em pouco mais de um ano, o mercado de LRS saiu da primeira emissão para quatro operações e cerca de R$ 270 milhões emitidos. Novos participantes se preparam para entrar: a Ariel SSPE, plataforma independente fundada por especialistas em resseguro, já obteve a aprovação prévia da Susep e aguarda a autorização definitiva. Corretoras como a Lockton Re também criaram estruturas dedicadas a assessorar operações de LRS.
O regulador segue avançando. Em setembro de 2026, a Susep apresentou propostas para ampliar a proteção contra catástrofes naturais, incluindo ajustes na LRS, cat bonds e seguros paramétricos. Com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes no Brasil, o instrumento pode se tornar peça-chave para levar capital do mercado financeiro a riscos hoje pouco segurados.


