Por João Vitor Mazzarino Pontes
Pense em um casal de 45 anos com apartamento quitado avaliado em R$420 mil e outros R$80 mil divididos entre um plano de previdência e um CDB que só vence em 2028. No papel, são R$500 mil. Agora imagine que o marido, responsável por dois terços da renda da casa, sofre um acidente e fica oito meses afastado. A conta de luz, a mensalidade da escola e o plano de saúde continuam chegando, e nenhum desses credores aceita metro quadrado como pagamento.
Sobram poucas saídas: resgatar as aplicações antes da hora e aceitar a perda, tomar crédito a juros altos ou vender o imóvel com pressa, quase sempre abaixo do valor de mercado. Repare que essa família não é pobre. O que lhe falta é dinheiro que possa ser usado amanhã de manhã.
O exemplo é hipotético, mas o retrato não é exceção. A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, que a ANBIMA e o Datafolha divulgaram em abril, mostra que 69% dos brasileiros dizem ter alguma reserva financeira. O número anima até que se olhe para a duração desse dinheiro: para 43% da população, ele acabaria em até seis meses caso a principal renda da casa parasse e apenas 26% conseguiriam atravessar um período maior. A maioria guarda alguma coisa. Pouca gente guarda o bastante.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em seu Portal do Investidor, define liquidez como a facilidade de transformar um investimento em dinheiro por um preço justo e sugere manter como reserva o equivalente a seis a doze meses de despesas, em aplicações de baixo risco, com resgate diário e sem carência. O tamanho ideal depende da estabilidade da renda e de quantas pessoas contribuem para ela. Um servidor público concursado e um profissional liberal que sustenta sozinho três filhos não precisam do mesmo colchão.
No meu trabalho com seguros e planejamento financeiro, faço três perguntas antes de qualquer recomendação. Quanto a família tem? Quanto desse total ela consegue usar em uma semana sem perder dinheiro? E o que acontece com o orçamento se quem sustenta a casa adoecer, se machucar ou morrer? Muita gente responde bem à primeira e nunca parou para pensar nas outras duas.
Nada disso quer dizer que concentrar recursos em imóveis, em uma empresa ou em investimentos de longo prazo seja um erro. Para construir patrimônio, muitas vezes é o caminho certo. Só que essa escolha cobra um complemento. Uma reserva acessível segura as despesas dos primeiros meses. Já para os riscos mais pesados, como invalidez, afastamento prolongado ou morte do provedor, o seguro tem uma função que a aplicação financeira não tem: transferir para a seguradora a parte do prejuízo que a família não conseguiria absorver. Vale ler a apólice com atenção, porque cobertura que não está no contrato simplesmente não existe na hora do sinistro.
Proteger a família não se resume a comprar mais produtos nem a deixar o dinheiro parado na conta. Tem mais a ver com decidir, com antecedência, qual parte do patrimônio serve para crescer e qual precisa estar à mão no dia em que a renda falhar, e com entregar ao seguro o risco que a casa não teria como bancar sozinha. Quem faz essa conta antes da crise dificilmente precisará vender às pressas, numa semana ruim, o que levou duas décadas para construir.
João Vitor Mazzarino Pontes é executivo, empreendedor e consultor financeiro com experiência nos setores de seguros, proteção financeira e serviços financeiros. Fundador e diretor executivo da VIVA Corretora de Seguros, atua com estratégia comercial, planejamento financeiro, gestão de riscos e construção de soluções voltadas à proteção patrimonial. Também possui trajetória de destaque em produção e performance comercial no mercado financeiro e de seguros.
Referências
- Raio X do Investidor Brasileiro, 9ª edição, 2026
- Portal do Investidor — Liquidez
- Portal do Investidor — Emergências e aposentadoria


