As seguradoras estão contratando profissionais para desenvolver soluções de inteligência artificial, mas as descrições de cargos operacionais ainda não refletem como o trabalho de regulação de sinistros e de subscrição irá mudar.
Os investimentos em IA começam a alterar os requisitos para os profissionais do setor de seguros. À medida que a IA se integra às operações diárias, os funcionários precisarão interpretar insights gerados por sistemas, gerenciar exceções, documentar decisões apoiadas por IA e aplicar julgamento em situações em que as ferramentas automatizadas não tenham contexto suficiente.
A Shift analisou recentemente 100 anúncios de emprego de importantes seguradoras dos Estados Unidos para entender como essa transição se manifesta no mercado de trabalho. Os resultados mostram uma demanda significativa por profissionais responsáveis pela criação de recursos de IA. Setenta e dois por cento dos cargos em IA, análise de dados, produto e tecnologia mencionavam explicitamente a IA. Entre as funções operacionais de regulação de sinistros, subscrição, investigação especial de sinistros (SIU) e sub-rogação, o índice foi de 6%.
Os resultados sugerem que as seguradoras avançaram para a próxima fase da adoção da IA. As equipes técnicas estão desenvolvendo a infraestrutura e os recursos necessários. Agora, o trabalho se estende à preparação de toda a organização para utilizar esses recursos de forma eficaz.
As descrições de cargos revelam como o trabalho está evoluindo
As descrições de cargos cumprem diversas funções. Elas atraem candidatos, definem responsabilidades atuais e sinalizam quais competências uma organização espera que sejam importantes no futuro. Analisadas em conjunto, também podem mostrar como um setor está se preparando para mudanças tecnológicas e nos modelos operacionais.
Os padrões de contratação identificados na pesquisa da Shift sugerem que as seguradoras concentraram grande parte de suas contratações visíveis relacionadas à IA nas equipes responsáveis por desenvolver, implementar e dar suporte à tecnologia. Esses cargos exigem conhecimentos especializados em ciência de dados, desenvolvimento de produtos, análise de dados e engenharia.
O impacto desses investimentos acabará se estendendo por toda a empresa. Profissionais de sinistros, subscritores, investigadores e outras equipes operacionais usarão cada vez mais ferramentas baseadas em IA em suas atividades diárias. Suas responsabilidades evoluirão à medida que esses sistemas forem integrados mais profundamente às decisões e aos fluxos de trabalho.
Essa transição começa a se manifestar no mercado de trabalho. As descrições de cargos operacionais continuam a enfatizar competências essenciais do setor de seguros, como julgamento, comunicação e atendimento ao cliente. Poucas descrevem responsabilidades relacionadas a insights gerados por IA, à gestão de exceções, à documentação de decisões apoiadas por IA ou ao uso responsável de recomendações automatizadas.
Preparação para o trabalho em seguros apoiado por IA
A experiência em seguros continua essencial. O julgamento humano ainda é uma das competências mais valorizadas no setor: quase oito em cada dez anúncios analisados mencionavam julgamento, discernimento, tomada de decisões complexas, investigação, negociação ou resolução de problemas. Mais de três quartos dos anúncios para funções operacionais enfatizavam essas capacidades.
A IA mudará a forma como essa experiência é aplicada. À medida que os sistemas automatizados assumirem mais tarefas rotineiras, os funcionários poderão dedicar mais tempo a sinistros complexos, disputas de responsabilidade, interpretações ambíguas de apólices e situações delicadas envolvendo clientes. Esses cenários exigem contexto, experiência e tomada de decisão que não podem ser reduzidos a um resultado do sistema.
Os resultados mostram que as descrições atuais valorizam o julgamento, embora raramente o apresentem no contexto do trabalho apoiado por IA. Poucos anúncios para funções operacionais mencionam suporte à decisão com auxílio de IA, e nenhum deles faz referência ao uso responsável da IA.
As seguradoras podem começar a definir essas competências com mais precisão. O julgamento inclui avaliar se uma recomendação apoiada por IA faz sentido naquele contexto. A investigação envolve, cada vez mais, determinar quais informações adicionais são necessárias quando um sistema sinaliza um sinistro, uma apólice, um prestador ou uma rede. A comunicação inclui explicar uma decisão de maneira clara e empática quando ferramentas digitais tiverem influenciado o processo.
Nesse ambiente, a IA pode aumentar o valor da experiência em seguros ao ajudar os profissionais a aplicá-la de forma mais consistente e em maior escala.
Os anúncios para cargos de nível inicial incluídos na amostra oferecem uma indicação preliminar de como esse desenvolvimento pode ocorrer. As referências à IA eram incomuns entre as funções relacionadas a sinistros, embora alguns cargos de trainee mencionassem especificamente disposição para aprender ou receber treinamento em IA.
Essa linguagem sugere que algumas seguradoras podem planejar o desenvolvimento da fluência em IA por meio da integração de novos funcionários, de programas internos de aprendizagem e do uso diário de ferramentas de IA. Essa abordagem pode ser especialmente valiosa em um setor que enfrenta uma lacuna de experiência e de talentos. A IA pode ajudar funcionários mais novos a acessar o conhecimento institucional, identificar informações relevantes e desenvolver práticas sólidas de tomada de decisão com mais rapidez.
Os dados dos anúncios de emprego não mostram a extensão desses programas de treinamento. Eles, no entanto, levantam uma questão importante sobre a força de trabalho: como as seguradoras devem combinar a contratação, a capacitação e o desenho de fluxos de trabalho para preparar as equipes operacionais para o trabalho apoiado por IA?
Incorporando a IA responsável às funções operacionais
A IA responsável aparece raramente nas descrições de cargos do setor de seguros. Referências à explicabilidade, à governança, à transparência e ao uso responsável surgem ocasionalmente em funções analíticas e técnicas. Nenhum dos anúncios para funções operacionais analisados incluía essa linguagem.
À medida que a IA se tornar parte das decisões cotidianas no setor de seguros, a governança também se tornará uma competência operacional. Os funcionários que utilizarem sistemas apoiados por IA poderão precisar reconhecer quando uma recomendação exige análise adicional, determinar quando são necessárias evidências complementares, documentar como a IA influenciou uma decisão e encaminhar casos quando o sistema não tiver confiança ou contexto suficientes.
O desenho com participação humana, a possibilidade de auditoria e os controles operacionais começam no nível tecnológico e se estendem ao longo do fluxo de trabalho. Sua eficácia depende das pessoas que os aplicam em situações reais.
Muitas seguradoras podem, atualmente, tratar a IA responsável por meio de equipes técnicas, jurídicas, de risco ou de compliance. A adoção mais ampla exigirá traduzir esses princípios em expectativas práticas para profissionais de sinistros, subscritores, investigadores e gestores.
A próxima fase
Os dados de contratação mostram que as seguradoras estão investindo em talentos técnicos necessários para desenvolver e implementar a IA. A próxima fase envolve integrar esses recursos ao trabalho de profissionais de sinistros, subscritores, investigadores e de outras equipes operacionais.
A experiência tradicional em seguros continuará sendo a base dessas funções. Os funcionários aplicarão esse conhecimento em um ambiente influenciado por insights apoiados por IA, por fluxos de trabalho automatizados e por sistemas de suporte à decisão cada vez mais sofisticados. Descrições de cargos, integração de novos funcionários, treinamentos e expectativas de liderança podem ajudar a definir como esse trabalho deve ser realizado.
Em última análise, o valor da IA dependerá da qualidade das decisões que ela ajudar as pessoas a tomar. As seguradoras que combinarem tecnologia sólida com profissionais experientes e bem preparados estarão mais bem posicionadas para melhorar a consistência, administrar casos complexos e atender os clientes de maneira eficaz.
A transformação promovida pela IA é, portanto, também uma transformação da força de trabalho. Seu sucesso dependerá da capacidade de ajudar os profissionais de seguros a utilizar novos recursos com julgamento, confiança e responsabilidade.
Escrito por Éric Sibony,cofundador da Shift Technology.


